Ao longo de 20 anos, venho escrevendo um livro sobre a história de um eu que não tem meu nome. Uma autobiografia não sendo de mim. Difícil mesmo é dividir a vida em capítulos. A cada frase, uma escolha. Sentimentos e letras combinam-se e criam um número de parágrafos, frases de efeito, ações do personagem principal, algumas participações especiais, um vilão aqui, uma bruxa má ali e, no final, esperamos que tudo aquilo faça sentido. Sentido para quem?
terça-feira, 6 de setembro de 2011
domingo, 28 de agosto de 2011
Eu poderia falar de amor
Eu poderia falar de amor ou do sonho dessa noite, que eu tinha adotado uma menina e precisava escolher o nome. Poderia reclamar da chuva que não vem ou do calor e do frio que lutam pelo primeiro lugar na fila. Falar do nada, da dificuldade de falar sobre o nada, encher muitas linhas sobre o nada, o vazio, o branco, o silêncio, o teclado do computador.
Eu poderia falar sobre vírgulas e seu namoro com as letras. Namoro de amor e ódio, cheio de rancor, selvageria e tesão. Sempre achei que as vírgulas eram meio tias velhas solteironas, mas descobri que são amantes das melhores, as prediletas, inesquecíveis e suspiráveis amantes de todo mundo, que sofrem por não serem um belo, gordo e importante ponto final.
Eu poderia falar de ingratidão, grosseria, idiotas no trânsito, injustiça social. Poderia falar sobre simpatia, pessoas iluminadas que não precisam fazer o menor esforço para serem de outro mundo - bastam existir que enchem salas e corredores de cores, cheiros e sabores. Eu poderia reclamar, elogiar, brindar, aguentar - e como tenho aguentado! Falar de internet e a imensa oportunidade que as pessoas perdem de ficar caladas ao invés de falar, falar e falar. Poderia fazer tudo que desejasse, porque sou livre e dono de meu arbítrio. Dar um pulinho no inferno, pecar, subir aos céus, rezar, pedir perdão e descansar.
Eu poderia falar sobre sorrir, comprar pães, limpar o fogão, atender ao telefone, a problemática de dar água com açúcar para beija-flor. Poderia tirar mil trezentas e noventa e oito máscaras que carrego grudadas em cada pedaço do corpo. Poderia contar meus dentes, meus dedos, meus medos. Poderia tirar a roupa. Poderia lavar a louça. Quem sabe os dois ao mesmo tempo?
Eu poderia falar de música sertaneja, ter um chapéu na cabeça e um caminhão na garagem de casa. Poderia ser músico de porta de botequim e receber quinhentos reais por mês - ou tomar tudo em cerveja. Poderia ser um bebê chamado Luiz Felipe ou o filho mais novo do Carl Sagan, como já sonhei acordado após ler um de seus livros em menos de 24 horas com uma xícara de café frio na mão.
Eu poderia falar de sonhos e do porquê eles acontecem, mas eles são tão difíceis de explicar...
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Pra'queles que não sabem sambar
Meu caro, a culpa é toda sua. Se você não queria uma pessoa que sambasse, jamais deveria tê-la chamado para dançar. Veja o meu caso: nós dois sambamos, nós dois bebemos, nós dois cantamos, nós dois sentamos, nós dois rimos e nós dois também vamos embora juntos - porque é isso (e muitas outras boas coisas) que o amor faz.
Mas você, meu caro, esqueça essa coisa de poder. Isso não existe no seu mundo. Não enquanto você continuar sendo quem você tem sido. Você só terá alguém do seu lado - desse jeito que tanto almeja - se souber entrar na dança, seja ela qual for. Se sambar também, sem esperar nada em troca. Se você sambar, ela vai sentir prazer em dançar a valsa que você tanto gosta e ela detesta. É simples assim. Mas sei quão difícil é, pra você, essa coisa toda de proporcionar prazer, ceder, ouvir o CD inteiro sem pular as faixas, rir de uma piada que não seja de sua autoria.
Com o tempo, você vai notar que o samba se tornará tão prazeroso quanto a valsa. E, aos poucos, você vai notar que nenhum dos dois vai ter poder, que não haverá brigas sobre quem pode menos ou mais. Meu caro, você vai ver que amar é tão simples quanto sambar. Basta ter malemolência e se entregar.
sábado, 23 de julho de 2011
Come as you are
Sinto que, a medida de cada toque, gesto ou olhar, o quê há dentro de mim cresce e toma proporções não-tangíveis - como a alma ou quaisquer outras dessas coisas que a gente insiste em afirmar que possui e nem sequer sabe do quê se trata. Mente, espírito, amor, consciência, Deus...
Como se mede a paixão? Por que associá-la ao coração?
Ter consciência é agir com ciência? Mas não dizem que a ciência muda com frequência?
Já que não existe uma forma de medir o quê eu sinto; já que o quê eu sinto é associado a um órgão muscular oco que trabalha de forma simples e meramente sistêmica; já que eu não sei se há consciência na ciência desse sentimento progressivo que guardo em algum lugar que não sei onde mas dentro de mim, quero aproveitá-lo ao todo, com a inocência e ignorância de não se ter noção do quê realmente ele é.
domingo, 26 de junho de 2011
terça-feira, 21 de junho de 2011
Nota de rodapé
Para todos os relacionamentos, uma dica: vive-se de paixão. Dizem que rápido demais é tão ruim quanto lento demais. Boto os pés pelas mãos e discordo em gênero, número e grau. O amor é cruel, cotidiano, dia-a-dia (com hífen), cheio de defeitos e qualidades. A paixão é instantânea, vem crescendo e é certo que irá acabar, mas enquanto é, é. Nada de dúvidas - ou milhares delas que não precisam ser esclarecidas. O amor não cora de timidez, fica vermelho de vergonha. Posso te amar, mas não estou mais apaixonado por você.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Na linha do horizonte
Vamos fazer assim: Você vai embora daqui que eu vou embora dali. Se aproxima de si que eu me aproximo de mim. Você prossegue consigo que eu comigo prossigo. Você consegue, eu consigo. Você periga, eu perigo. Na linha do horizonte, a gente pode se cruzar, ali onde o poente encontra com a beira do mar.
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